O VELHO MAIS NOVO

 


O VELHO MAIS NOVO

Dante Locatelli 

Acordei idoso, com um estranhamento matemático. Não pelo cálculo, que é simples de entender. Estou tonto pelo paradigma: ontem eu não era; hoje eu sou. Um velho preso a uma palavra, a uma definição, a um lugar que até ontem não me cabia.

Entrei hoje na definição de idoso. Então aconteceu uma coisa curiosa: ninguém pode ser classificado como idoso e ser mais novo que eu agora.

Hoje eu sou, literalmente, o velho mais novo. Não uma contradição: é uma fronteira, um fato fortuito, uma brincadeira, um jogo de palavras. É tudo isso sem deixar de ser verdade.

Ontem eu ainda estava fora da palavra. Hoje acordei dentro dela. Mas idoso é só a classificação de um estado no tempo. Não é uma conclusão sobre a vida.

O corpo estava ferido, mas a mão ainda segurava a caneta — velha mania de responder ao tempo com uma frase, ainda que ninguém a leia. Porque chega uma hora em que a necessidade de aceitação perde força; quando a pessoa já carrega tempo demais dentro de si, certas aprovações começam a parecer pequenas. E o que sobra é tão somente o prazer de riscar o papel e depois ouvir a frase dentro da própria cabeça, como se fosse outro dizendo.

Acordei com o tempo inteiro dentro de mim. E o tempo inteiro também acordou comigo. O corpo sabe. Há corpos que chegam mais leves. Há corpos que chegam mais feridos. Há histórias que pesam mais do que outras. A minha pesa.

Acordei velho porque as costas doem. Porque, se faço esforço hoje, amanhã acordo dolorido — isso se conseguir terminar o que comecei.

Acordei com dor nas costas, mas não posso parar. Acordei com sessenta anos — e talvez seja isso que aconteça quando alguém se torna idoso: a vida entrega sessenta desculpas para desistir. Mas hoje eu decidi transformar essa palavra em começo.

Talvez eu não seja o teimoso mais velho. Logicamente, não sou. Mas sou muito teimoso. Teimoso de um jeito profundo, pois dentro da minha teimosia mora uma certeza esquisita, contraditória, evidente demais para ser ignorada — e mesmo assim negada. Isso gera em mim um sentimento estranho, uma indignação, uma revolta. Ou seja: para quem me conhece, algo extremamente meu.

Talvez o velho mais novo seja exatamente isso: alguém que chegou ao território social da velhice, mas não entregou a capacidade de discordar do mundo. Alguém que sente o corpo avisar, mas ainda sente a mente provocar. Alguém que sabe que envelheceu, mas continua sendo atravessado por perguntas, ideias, inconformidades e uma vontade quase infantil de corrigir aquilo que parece errado.

Porque talvez a verdadeira velhice não comece aos sessenta anos. Talvez comece quando a pessoa para de se indignar.

E eu ainda me indigno.

A verdade fica tranquila, sentada ao lado de quem a ignora. Não tem pressa, não tem ira e conhece muito bem o seu lugar. Ocasionalmente até sorri, quase cínica, enquanto encara a mentira nos olhos.

Então, se hoje acordei idoso, acordei idoso sem submissão.

Hoje eu acordei o velho mais novo.

Velho o bastante para saber que o tempo não tolera rasura, não dá reembolso e não devolve o que foi deixado para depois. O tempo de hoje, quando abandonado, simplesmente desaparece.

Ainda sou novo o bastante para querer fazer alguma coisa com esse tempo incerto, escasso e vivo que me resta.

Hoje eu acordei o velho mais novo. E talvez esse seja o meu verdadeiro aniversário: não o dia em que o tempo me alcançou, mas o dia em que eu olhei para ele, segurei a caneta e respondi.


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