UMA VERDADE ESTRANHA E MARAVILHOSA
UMA VERDADE ESTRANHA E MARAVILHOSA
Estranho perceber como uma parte tão pequena do passado pode adquirir um peso tão grande, quase inexplicável.
Sente-se que a vida foi longa, cheia de percalços, vitórias e derrotas. E mesmo quando as vitórias parecem maiores que as derrotas, ainda assim um pequeno fragmento desse passado — alheio até mesmo a essas grandes conquistas — assume uma importância difícil de compreender.
A memória é assimétrica.
Mesmo estando todos presentes no mesmo instante da história, cada um guarda para si uma impressão diferente do passado. O carinho também se revela assimétrico: incerto, muitas vezes questionável.
Todos poderiam perguntar por quê.
E eu não teria resposta.
Em um passado tão longo, por que guardamos um afeto tão grande por um tempo relativamente tão curto?
Diante disso, não guardo respostas, nem posso afirmar que tais sentimentos sejam partilhados por todos. Posso apenas compreendê-los e desejar acreditar que sim: que aquele pequeno fragmento de tempo, diante de um passado tão vasto, conserva algo de especial.
Talvez a questão mais curiosa seja a perseverança silenciosa dessa aproximação tardia, mesmo sem função evidente ou ganho aparente.
E a estranheza aumenta ainda mais quando percebemos que não estamos todos aqui. Falta apenas uma ínfima parte do grupo — quatro pessoas em uma turma de mais de oitenta — e, ainda assim, essa ausência parece desproporcionalmente grande.
Gande, Minhoca, Binho e Lobão.
São apenas quatro nomes.
Mas a falta deles pesa de maneira absurda e triste, como se nenhuma razão fosse suficiente. Talvez realmente não exista explicação.
Existem também aqueles que, por alguma razão, decidiram não participar deste nosso convívio — e que, estranhamente, também permanecem presentes em nossos sentimentos e lembranças.
O que nos resta é apenas aceitar e constatar o fato — não por método científico, mas por algo mais simples e mais profundo: uma humanidade que ultrapassa qualquer explicação.
Isso me faz reforçar uma ideia antiga, que nem mesmo é minha: o valor da vida não está no tempo que ela dura, mas na força do sentimento que ela deixa — em quem fica e no mundo.
Ninguém aqui, e em lugar nenhum, viverá para sempre — graças a Deus; pois, além de inútil, isso seria extremamente doloroso.
Diante da incerteza da partida e da falta de preparo para ela, talvez nos reste apenas a tranquilidade de sermos verdadeiros conosco mesmos e fiéis aos amores que habitam em nós. Acho que isso basta.
É essa presença silenciosa, que permanece nos corações, que acaba modulando muitas de nossas atitudes.
Somos não apenas o que fazemos, mas também aquilo que nos recusamos a fazer. E muitos desses limites vêm de figuras que continuam existindo dentro de nós, mesmo quando já não estão mais aqui.
São delas as vozes, quase indistinguíveis de nós mesmos, que em nossos pensamentos mais profundos ainda nos encaminham nesta vida.
Talvez seja esse o verdadeiro valor da saudade.
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