Eu Pareço Um Idiota Mesmo E Tudo Bem
Eu Pareço Um Idiota Mesmo E Tudo Bem
O que chamamos de verdade é um mero consenso entre loucos, porque “a vida é um sonho dentro de um sonho”¹ e também “uma sinfonia de bulhas e fúrias sem nenhum sentido”².
Ainda assim, fazemos tudo o que fazemos por amar e por dever. Mas o que, de fato, amamos? E qual era nosso dever, se vivemos dentro dessa neblina onde mal vemos um palmo à frente do nariz e seguimos tropeçando? A vida é uma sucessão de acidentes.
Somos como caracóis gigantes e, com o tempo, tornamo-nos uma massa de cicatrizes, carregando nossas casas nas costas, levando conosco tudo o que amamos e odiamos. Deixamos para trás aquilo que não teve lugar em nós, mesmo quando, de alguma forma, nos marcou.
Já fiz esse teste várias vezes, conversando com pessoas importantes, e descobri que, dos mesmos eventos, da mesma vida, não levamos a mesma coisa. Podemos viver o mesmo fato, no mesmo momento, e ainda assim cada um guarda uma história diferente do que se passou.
Cada um carrega sua própria narrativa, e ela terminará no seu derradeiro instante — ao menos da maneira como tentamos fazê-la parecer coerente. O que sobra de tudo isso ninguém sabe. As opiniões divergem. No fim, pouco importa, “pois ninguém caminhou uma milha nos meus mocassins”³ — nem eu nos seus, nem você nos meus.
Diante de toda essa loucura, peço apenas que, no fim, eu possa sorrir como um idiota, olhando o horizonte, com os olhos perdidos, enquanto o sol mergulha no mar pintado de negro, vermelho, laranja e amarelo.
Em memória de Kathia Humeoka, amiga querida, com respeito e espanto
¹ Edgar Allan Poe
² Macbeth, de Shakespeare
³ Mary T. Lathrap
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